Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

O parto

Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário
que me sofra e me solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência.

(Nauro Machado)

Domingo, 12 de Julho de 2009

à sua espera

(ao Rogério)

mãos gélidas que se esfregam, descompassadas,
na tentativa de aquecer também o coração
os olhos observam o redor vago e caem
mudos
o silêncio, a ausência, os pensamentos...
tudo, neste momento, parece-me mais intenso
(e também por isso muito mais torturante)
mas quando cerro os olhos a imaginar
o gosto do reencontro
a lágrima que afaga a face já não mais
pode chamar-se de tristeza

sempre à espera

mãos trêmulas
peito comprimido
olhar lânguido perdido no horizonte
é bem assim que me percebo
tantas vezes

(eu quero mais pr'essa minha pequena vida
e o meu mais necessita de tão pouco,
mas esse pouco tem sido tão difícil de encontrar)

e quando olho ao meu redor
e vejo o quão acomodada sou, sinto vergonha de
minhas mãos e de meu peito e de tantos olhares perdidos
embora eu saiba que de um modo ou outro
acomodados todos somos

(somos duas folhas perdidas, soltas ao vento,
à espera de amores e aventuras e alegrias e tristezas
tudo, desde que seja verdadeiro
mas esperar não basta)

Sábado, 11 de Julho de 2009

Leve-me pra longe daqui

poema criado

evitam o poema inspirado
ele parece, nos tempos modernos, uma marca
uma chaga
mas não reconhecem que as coisas
são inspiração
tudo que habita nesse mundo é que nos leva a cantar
a ausência, inclusive
porque o que seria aquele nada ali que me faz desembocar no papel em branco
tentando compreendê-lo ou somente
reconhecendo que nunca o compreenderei?
é a alma do mundo
e quando digo que sou inspirada pela noite
seduzida pelo seu mistério sem fim, inebriante
envolvida pelo seu silêncio que me é vital
é porque não me importam
os rótulos que talvez você possa colar nessa minha testa grande de resignação
(também não queira, você, acreditar em tudo o que lê
nessas linhas tortas
porque pode ser tudo invenção)

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

máxima

morro a cada noite
mais uma vez
e o que fica é pra
nunca mais

aforismo

a cada silêncio
morro uma vez
e o que depois
dessa morte
fica
é o de nunca mais